Não Tenha Medo do Escuro

Em tempos em que o cinema de terror se apoia cada vez mais no gore (os esguichos de sangue e tripas, a violência gráfica) e nos sustos fáceis, é raro encontrar um filme que retome os valores clássicos do gênero. Sussuros na noite, silhuetas nas sombras e medo gerado através da ambientação (a iluminação e o som do filme são excepcional) são justamente as apostas de Não Tenha Medo do Escuro (Don't Be Afraid of the Dark, 2011).
A trama acompanha uma menina (Bailee Madison) abandonada pela mãe que é enviada para morar em Rhode Island com o seu pai (Guy Pearce) e a nova namorada dele (Katie Holmes). Lá, a menina descobre sinistras criaturas morando no casarão do século 19 que o pai está restaurando para vender.
O filme é um remake de uma produção para TV exibida em 1973. Quem cuidou da direção foi o quadrinista Troy Nixey, estreando no cinema sob a supervisão do produtor Guillermo del Toro, que também adaptou o roteiro ao lado de Matthew Robbins, seu parceiro em Mutação (1997).
O trio faz um ótimo trabalho dentro de suas pretensões estéticas e temáticas, ainda que Nixey não tenha muito espaço para deixar qualquer marca autoral: Não Tenha Medo do Escuro leva demais o selo de Del Toro, lembrando diversos de seus trabalhos (às vezes até gratuitamente, como na cena das carpas, exageradamente copiada de O Labirinto do Fauno), e também outra obra de quadrinista, Coraline, de Neil Gaiman.
O ponto alto do filme é a mitologia criada para a raça que habita o casarão. A maneira como ela é desvendada aos poucos, com direito a mural pintado por uma mente que cedeu à loucura, na melhor tradição do gótico e com inspiração em H.P. Lovecraft, é bem-sucedida em aguçar a curiosidade. Dá vontade de saber mais sobre elas e adentrar seus domínios nas profundezas.
Mas ainda que tenha ótima ambientação e momentos de excelente suspense (a cena do lençol, a la Sexto Sentido, é ótima), o filme gasta cedo demais seu maior trunfo, a expectativa pelas criaturas. Os diminutos seres malignos, afinal, não são tão assustadores assim, o que esvazia bastante seu potencial para o medo do meio para o fim da história. Segurá-los mais um pouco - ou talvez dar aos monstrinhos algo mais do que tesouras e navalhas - certamente teria resultado em um terror que voltasse à mente durante a noite, sob os seus próprios lençois.