Numa cultura onde o “PARECER” é mais válido que o “SER”, Glee nos transporta para um novo universo de paralelos, simbologias e pela primeira em sua totalidade, expõe e confronta suas personagens a aquilo que elas realmente são, mesmo que a forma de aceitação de cada repercuta de maneira diferente e por vezes inesperada. Quando a série iniciou sua jornada em 2009, trazia em suas entrelinhas a temática “Embrace yourself for who you are”, ou seja, o que é estranho, bizarro e por vezes excêntrico, pode tornar-se legal, descolado e irreverente. Schuester disse uma vez a Rachel em “Balads”: “Aquilo que menos gosta em você, pode ser aquilo que alguém mais amará sobre você”.
Para aqueles que estavam descontentes com o caminhar da temporada, acredito que “Born This Way” conseguiu provar com seus 56 minutos de duração que a série consegue ser reflexiva, intensa, dramática e ainda assim sutis doses de humor, claro que o episódio mais esticado dos gleeks proporcionou essas diferentes nuances, mas em sua maioria foi realmente um espetáculo televisivo, diferente dos episódios produzidos até hoje. O paralelo poderia ser visto como o “Theatricality” desta temporada, devido a Gaga vibe, mas pelo contrário, este episódio traz diversas referências nostálgicas em minha opinião, segundo melhor episódio da primeira temporada: “Laryngits”. Os paralelos podem ser vistos: pelo número do episódio; pela cena inicial com Finn no consultório com Rachel; por utilizarem novamente uma canção de Sammy Davis Jr; pelo solo de Kurt e seus questionamentos sobre sua sexualidade. Enquanto Schue propunha a seus alunos “encontrarem sua voz interior”, em BTW, o Sr. Bundinha quer provar ser um verdadeiro educador ao estimular e confrontar seus alunos e por que não Emma a abraçarem aquilo que os faz único, mesmo que não consigam aceitar-se por isto. Surpreendentemente a doença da conselheira assume um papel sério e menos caricato, afinal o TOC (Transtorno Obsessivo Compulsivo) é um problema grave que pode atingir proporções irreparáveis caso a pessoa não encare sua situação, algo que Will vê como alarmante, mas que a própria não consegue visualizar desta forma.
Ao ensaiar para as Nacionais, Finn que é não fora abençoado com o dom dos movimentos coreografados acaba acertando Rachel na parte mais característica de seu corpo:o nariz. Se formos voltar ao “Preggers”, Rachel proclamou com orgulho ao na época treinador do Vocal Adrenaline que “Barbra Streisand não deu ouvidos as pessoas quando estas diziam para operar seu nariz”, resumidamente a maior artista feminina da humanidade fechou os ouvidos para as críticas e seguiu em frente abraçando sua característica física, pois para além do nariz nasceria nela “uma mulher que é uma em um milhão”.
Insegura como visivelmente é quanto a sua aparência e mesmo tendo sua musa inspiradora a seu favor, Ms. Berry fica abalada com a sugestão de seu médico para fazer uma operação de redução, algo que ela coloca em pauta na sala do coral, o que rende mais um grande monólogo de Santana, esta que bate de frente com a hipocrisia da turma em admitir que sempre terão algo para mudar, algo que apoia totalmente, considerando que já colocou silicone. Justamente por isto, Schuester inspirado por Irma, traz o tema da semana: ACEITAÇÃO e ninguém melhor do que um modelo atual como Lady Gaga e um modelo de décadas como Barbra Streisand para ditarem o ritmo dos acontecimentos. Sem dúvida dentro da proposta de “Born This Way”, estas diferentes artistas se enquadram perfeitamente. Schue leva Emma para a sala do coral e juntos mostram a idéia que tiveram em estampar camisetas personalizadas, a exemplo de Irma que naturalmente deveria estar com os dizeres TOC, mas surpreendendo Will, estampando GINGER, deixando de lado o estímulo verdadeiro que ele gostaria de dar ao Glee Club. Diferente do que estamos habituados, a aproximação de Rachel e Quinn não foi nada relacionado a Finn e sim passa a mostrar como essas duas personagens se veem refletidas no espelho, além de cavar o fato de que Rachel, gostem ou não sempre se projetou na beleza de Quinn, fato muitas vezes reforçado quando esta dizia que era praticamente surreal alguém como Finn escolher alguém como ela, afinal ele namorava com a loira popular e perfeita. Desta vez se espelha no delicado nariz de Quinn, nariz este que servirá de modelo para a consulta. Mesmo que o motivo de acompanhá-la tenho sido para ganhar seu voto durante o baile, toda a cena valeu a pena pelo maravilhoso mash-up de “I Feel Pretty” do musical West Side Story e “Unpretty” da girlband TLC. Cada trecho da letra traz simbologias a estas tão distintas garotas, seja com Rachel falando “My outsides are cool, my insides are blue” ou com Quinn em ” But if you can’t look inside you…find out who am i to”. Inicialmente poderia-se analisar tal cena como uma humilhação a protagonista se a trama caísse na lameira do triângulo amoroso, mas é satisfatório o desenvolvimento que deram para as duas numa cena tão graciosamente entregue por Lea e Diana.
Já estava mais no que na hora de alguém confrontar Quinn e este posto fica aos cuidados de Lauren, que irreverentemente traz uma nova abordagem ao se candidatar como Prom Queen, mas ao contrário do que a Ex-Mama/Cherrio acha, Zizes resume-a numa simples sentença : Who you are inside and who you pretend to be for the rest of the world. They’re two different people”. Uma pena que esta abordagem tenha sido tão tardia, afinal cansamos de ver o talento de Diana Agron ser mal utilizado na segunda metade da primeira fase ou nesta mesmo, porém parece que os estão a tentar correr com o tempo para encaixá-la.
Naya Rivera pareçe ter sido abençoada após o hiatus do começo do ano, pois foi em “Silly Love Songs” que despontou como uma das personagens mais adoradas na série, inclusive acredito que toda a criatividade que o criador Ian Brennan para dar vida as falas de Sue, acabou por transferir para Satan, pois de fato ela é a “Top Queen Bitch from Lima”. Todo seu brilhantismo autoritário somados ao talento natural de Naya só vêem a comprovar com honrarias a atenção que tem conquistado. Determinada a abocanhar a coroa de rainha do baile e o coração de sua BFF de uma vez por todas, tenta encontrar em Dave Karosfky, o valentão enrustido, o seu trampolim de conquista, mas tudo vai a seu favor quando em conversa com Blaine e Kurt percebe que poderá ter como ela mesma diz o maior “WIN WIN” de todos, pois convertendo Karofsky, isto fará com que Kurt volte pra escola; que ela seja a nova heroína para Britt, além de terem maiores chances nas Nacionais. Não canso de dizer, mas em escala de evolução, Santana, Rachel e Kurt sobem sozinhos ao topo, o que por vezes camufla as demais falhas que a série sempre teve e a falta de destaque da maioria do elenco.
Percebendo a preferência ao vê-lo secar o traseiro de Sam, Santana confessa saber do que acontecera realmente com Kurt e todo o motivo por ele ter saído do McKinley. Quão hilárias são as histórias que ela cria, lembrou-me da longa conversa que teve com Sam a respeito de como Quinn o traia, mas agora com Karofsky, constrói a imagem de que este viverá para sempre “dentro do armário”, mas que neste momento poderão se ajudar, por estarem no mesmo time. Comparando-os com os Roosevelts, forma-se então uma aliança inusitada, pois sentados a mesma mesa estão um gay e uma lésbica que mesmo com o exterior dizendo que não, estão aterrorizados com a possibilidade de que o mundo descubra sobre sua verdadeira essência. Ameaçando-o de espalhar a verdade sobre ele caso não aceite o acordo, Satan pelo menos a si mesma admite que “The only straight I am is straight up bitch.”
Finn condena a forma com que Quinn está “ajudando” Rachel e esta fica incomodada pelo fato da “ex” estar sempre entre os dois. Vejo que a questão não é mais esta e sim como Finn se comporta perante a situação, alias assim como suas duas garotas, pela primeira vez ele está agindo individualmente e não membro do love triangule e isto deixa bem claro no adorável e desajeitada apresentação de “It Got Be Me” do lendário jazzista Sammy David Jr. A coreografia ficou a cargo do elasticamente talentoso Mike Chang, que contou com a assistência de Finn como sua sombra invertida e atrapalhada. Fico a pensar quão dificil foi para o elenco se concentrar para não rir sem parar neste momento, afinal Cory pode ter feito vários trabalhos pra ganhar a vida antes de ser ator, mas sem dúvida dançar nunca poderia ser seu “ganha pão”. Agora quando Rachel aparece com seu bizarro photoshop feito por seu médico, todos ficam escandalizados com a sua “Fabray Nose”, o que acaba por levar os Finchel de plantão ao delírio quando Finn diz a ela: “Não faça isto, você é linda”, algo que soou quase como se ele cantasse novamente “Just The Way You Are”.
Inicialmente fiquei chateada com o fato de Karofsky vir a se desculpar somente por causa do esquema que Santana armou, porém pensando cruamente a respeito, isto nunca iria acontecer de forma natural, assim, mesmo que ensaiado, o valentão tenta expressar quão arrependido está de ter infernizado a vida de todos, principalmente Kurt, mas tem muito a agradecer a Satan, pois foi ela que mostrou a luz no fim do túnel. Tirando a impressão inicial da cena, foi importante ver que esta figura que personifica o bullying na escola, pronuncia em voz alta alguns trágicos acontecimentos com jovens vitimas desta cruel tendência atual que por falta de apoio, orientação e medo, acabam por tirar suas próprias vidas. Apesar de visualmente estranho imaginá-los como um casal, mesmo que de mentira, os novos pombinhos resolveram criar um novo clube na escola, agindo como anjos da guarda contra o bullying, ou seja, aquele que praticava, agora prega o contrário numa atitude mais positiva e saudável, resta saber como isto irá se desenrolar daqui pra frente.
Fazendo um paralelo com a conversa entre pais e filhos do episódio “Never Been Kissed”, vemos mais uma vez Mr. Hummel e Mr. Karofsky presentes num impasse entre seus filhos, porém diferente desta vez, a conversa mostra uma tentativa de paz entre os garotos, pelo menos ao que tudo indica, considerando que com o valentão aposentando o cargo de ofensor master da escola, a situação voltaria a ser favorável a Kurt, já que ele visivelmente senti falta de estar no McKinley High. Dizer que Mike O’Milley mais uma vez representou o pai do ano não é mais necessário, afinal só Kurt e agora Finn podem ter esta figura paterna tão exemplar a seguir. Esbanjando maturidade, o Divo resolve conversar sozinho com David, mas contrário do que ele prega em sua nova campanha, Kurt quer saber o real por trás disto tudo, pois uma mudança repentina destas deve ter seu propósito, o que acaba revelando o plano de Satan ou para aqueles que conhecem a “Eve Harrigton” Latina (menção a lendária atriz da Broadway conhecida por seu marcante papel em A Malvada, filme de 1950). E por fim buscando um relacionamento mais saudável para ambos, Kurt propõe que ao invés de ter que revelar a todos quem Karofsky realmente é, que ele aceite “educar-se” a respeito, tornando-se uma pessoa mais respeitável e esclarecida, independente de se for gay ou não Cavando nas profundezas de atual rival, Ms. Zizes encontra por meio ilegais, a verdadeira essência, alias para ser mais direta: a verdadeira face por traz de Quinny Fabray ou seria mais correto dizer: Lucy Caboosey?! Disposta a provar que Quinn nunca foi aquilo que mostra para todos no McKinley, a gigante lutadora descobre que os documentos de transferência da loira são falsos, pois na verdade ela estudara em outro colégio antes de vir para Lima, ou seja, quando vai até o verdadeiro local, descobri uma Fabray totalmente diferente, eis então que a trama dá uma reviravoltar colocando a Ex-Mama e Cherrio também como uma Ex-Gorda/Quatro Olhos. Desde os primórdios me perguntei “Qual é a real por trás desta perfeição toda?”, mas nunca iria imaginar que esta seria sua verdadeira face, face na qual com olhos lagrimejando e voz fraca revelam ter sido os piores anos de sua vida, anos que odiou-se a cada instante. Entendo um pouco mais as razões da personagem ser tão pregada ao seu exterior, mas continuo a achar um desperdício de potencial, pois para alguém que estava a instantes cantando “I Feel Pretty” e deixando Rachel sentir-se “Unpretty” exatamente da mesma forma que ela passou até os 14 anos, acho que se não corrigirem isto futuramente, terá sido mais um argumento inválido, pois só comprovará quão egoísta Lucy Quinn Fabray se tornou e acredito que lição nenhuma sobre “Born This Way” poderia surtir efeito agora.
Voltando a conflitante Drama Queen, Puck apela com seu sempre convincente discurso “Seja uma judia que honre seu povo”, assim vai com ele ao shopping da cidade e acaba se deparando com sua alma gêmea Kurt Hummel, munido para uma Barbravention, ou seja, uma intervenção que a impeça de cometer o grande erro de operar seu nariz. Sensatamente diz que estara desapontando sua idola absoluta, esta que sempre recusou se adequar aos rótulos e padrões de beleza. Todo o paralelo que Glee sempre fez entre Rachel e Barbra não é por acasao, pois vejo Lea Michele atualmente como um modelo a ser seguido pelas jovens, afinal sua segurança, determinação, além da diferenciada e multi-étnica aparência sempre geraram comentários, pois nunca se encaixava no que esperavam das garotas de sua idade. Quando sua personagem diz: “But what if i can’t be like her. Isn’t she one in a billion?”, Kurt rebate com a resposta mais linda e verdadeira possível: “So are you, Rachel”. Ainda não sei consigo escolher o flash-mob favorito, considerando que “Dream On” é o favorito da primeira temporada, inclusive centrado no meu Glee Boy e Glee Girl favoritos, mas sem dúvida o hit eletrônico “Barbra Streisand” do Duck Sauce fez jus a mais um especial momento, sem contar que tudo que deixa Rachel feliz, também me deixa feliz a sorrir.
Surpreendendo a todos em seu maior tempo em tela durante um episódio desta temporada, a trama resolve mostrar Emma no ambiente mais apropriado a ela: uma sessão de terapia. Deixando seus engessamentos de lado, Irma resolve buscar ajuda profissional para seu severo transtorno, mas contrário ao que imagina sua situação pode ser controlada através de medicamentos apropriados e terapia comportamental. Importante novamente mencionar o diálogo da terapeuta a respeito do tabu relacionado as doenças da mente, seja ela TOC, depressão, ansiedade e bipolaridade, todas muito dificeis de diagnosticar. Digo por experiência própria, convivo com pessoas em estados com estes, por isto me senti tocada pela sensibilidade da cena e a forma com que o assunto veio a superfície, considerando que Emma sempre relutou a enxergar seu problema e quando ela diz que não quer deitar-se num sofá a falar e muito menos tomar rémedios, sua terapeuta brilhantemente diz: “Your ilness is not who you’re supposed to be. It’s keeping you from who you’re supposed to be.” Assim como Rachel e Quinn, conhecemos Emma por Emma e não como Wemma, a integrante do relacionamento indefinido com Will Schuester.
Vale ressalvar que pela primeira vez desde que estão juntos nos últimos episódios, Fuinn trouxe uma cena realmente de relevância, alias uma cena que mostrou quão evoluido Finn se torna, seja agindo corretamente com Rachel referente a sua operação e seja agora com Quinn por causa da exposição de seu ”verdadeiro eu”. Contrário ao que ela própria esperaria como atitude, o bobalhão surpreende ao dizer que prefere esta nova foto dela, pois mesmo achando-se horrenda, mostrou na real, pela primeira vez quem ela é. Inclusive sua exposição rendeu novos eleitores, afinal as meninas que antes se inspiravam em Lauren, vislumbram com olhos brilhantes uma garota que era como elas mas que se transformou na garota mais bonita da escola, o que invariavelmente faz com que Lauren peça desculpas por tê-la ridicularizado, algo que Quinn nunca fez quando alvejava Rachel por esta não representar aquilo que considerava como aceitável e normal. Eis aí mais uma emenda a ser feita, caso contrário, argumento inválido novamente. Com este assunto parcialmente fechado, eis que Brittana abrem mais um capítulo de sua conturbada relação, desta vez relacionado a frase que Santana deveria vestir na apresentação.
Conforme já era esperado, “BICTH” é sua marca de nascença, mas é sua BFF mesmo que stoopidamente estampa “Lebanese” numa tentativa de soar como “Lesbian”, mas ainda desconfortável em assumir-se, esta foge do palco durante a emplemática e incrível apresentação de “Born This Way”, liderada por Kurt, Tina e Mercedes, além da presença de todo Glee Club com suas respectivas camisetas, estampando agora com orgulho aquilo que tem ou o que as fazem quem realmente são, inclusive Will e Emma entram no palco ao final, esta finalmente revelando o seu verdaideiro BTW.
Imagino quão longo e cansativo o review ficou, mas muitos aqui já sabem quanto me empolgo, principalmente quando o episódio caminha nos trilhos certos, sendo isto que senti, num episódio que foi além da aceitação ao desbravar minuciosamente suas personagens, deixando de lado qualquer shipper ou orientação, respeitando a história com aquilo que ela traz de melhor: seu elenco que como poucos atualmente me faz rir, chorar, xingar,pular, cantar, dançar e torcer a cada instante, por isto que se fosse escolher uma estampa colocaria sem dúvida a palavra SENTIMENTAL, pois honro meu apelido de Gleek até o fim, afinal “I’m Born This Way my Gleeks.”





